sábado, 25 de abril de 2009
Entrevista comigo
Não sei me definir. Fico impressionada com quem sabe. Sempre que leio entrevistas do tipo pingue-pongue sinto uma inveja danada de quem responde na lata. Uma cor. Um defeito. Um presente que mais gostou. Uma música. Uma frase.
Vamos supor que eu seja entrevistada. Primeira pergunta: uma cor. Uma cor pra quê? Se for pra dormir tranquilamente, lilás. Aliás, pode ser duas? Lilás ou azul clarinho. Se for uma cor pra me deixar magra: preto. Pra parede da sala, não saberia dizer o que me influencia a escolha. Só sei que já pintei a sala de vermelho, mostarda, bege, salmon... Pode ser quatro cores, então? Se for cor da roupa pra trabalhar, prefiro preto e branco. Mas tem que ser as duas juntas. Toda de branco é reveillon. De preto, o bope. Se for cor do carro, aí é mais fácil. Qualquer uma, menos cor de gema. Desde que seja a cor original, porque erraram na pintura do meu possante e de longe nota-se a diferença. De um lado cor de vinho cabernet sauvignon; do outro, rosè. Tô indo bem na entrevista? Continuemos.
Um defeito. Depende da situação provocadora. Se eu achar que foram injustos comigo, tenho o defeito de não dar a outra face. Respondo e argumento até lembrar dos sábios que ensinam que o melhor é calar. Mas aí já respondi. Deixa pra calar na próxima. Eu hei de aprender a calar. Depende também da perspectiva. O que pode ser um defeito em mim, pode não ser noutra pessoa. Tem gente que daria tudo pra não ter medo de responder a quem lhe foi injusto. Então, o meu defeito seria uma virtude nesta pessoa. Mas como a entrevista não é com esta pessoa e, sim, comigo, tenho que voltar ao assunto e confessar um só defeito, entre não saber calar, não saber dar entrevistas pingue-pongue e não saber me definir. Posso pular essa pergunta?
Um presente que mais gostou. Agora pegou. Que eu mais gostei durante a vida inteira? Quando eu tinha oito anos e ganhei meu primeiro relógio de verdade, foi a coisa mais emocionante da vida. Eu perguntava pra todo mundo se queriam saber as horas. Achava o máximo saber ver as horas sozinha. Mas também amei ganhar a coleção de fofoletes. Almoçava com elas ao lado do prato, pois a agência de publicidade das bonecas era tão boa que fazia as crianças acreditarem que a bonequinha dava sorte. Eu pedia pra boneca que me ajudasse a comer tudo para escapar da bronca da minha mãe. Deu tão certo que de tanto comer, tenho hoje que vestir preto pra parecer mais magra. Mas se a escolha puder ser entre os melhores presentes da pré-adolescência, poderia responder patins de ferro. Já na adolescência, pulseira cartier. Era chique ter pulseira cartier nos anos 80. E eu, como boa adolescente, precisava ser admirada pra me sentir segura. Mais pra frente um pouquinho, adorei ganhar um urso de pelúcia quase do meu tamanho. Mas, em geral, o melhor presente pra mim é o inesperado. Dois amigos viajaram recentemente e me trouxeram uma caixinha de madeira com sabonetinhos pra enfeitar o banheiro. Fiquei com cara de paisagem! Não esperava que lembrassem de mim numa viagem a trabalho. Foi um dos melhores que já ganhei. Outra vez fiquei feliz da vida por ter ganhado uma caixinha de pastilhas tic-tac. Eu adoro tic-tac da caixa azul. Só quem presta atenção em mim sabe que sempre tenho na bolsa. E ontem recebi um presente lindo: alguém me disse que adora ouvir o meu sorriso. Nossa, como foi bom receber isso! Enfim, pulemos essa também.
Uma música. Agora ferrou de vez. Eu, que sou viciada em música, tenho que escolher umazinha só? Pode ser uma da Zélia Duncan, uma do Nando Reis, uma da Legião (impossível uma só da Legião), uma do Vinícius, uma do Andreas Volleinweider, uma do Pedro Camargo Mariano, uma do Flávio Venturini, uma do Beto Guedes, uma da Sade, uma do Lulu Santos, uma do Ben Harper, uma do Vander Lee, uma do Jack Johnson? Dá pra dizer, no mínimo, 13?
Uma frase. Essa é pra enterrar de vez. Talvez Conhece-te a ti mesmo resuma o que considero fundamental na vida, mas não dá pra dizer que é a única. Tem frases que me transformam no agora. Mas as que eu lerei no dia seguinte me transformarão novamente e assim por diante. Como dizer que a frase de hoje será a minha frase eterna, se amanhã já serei outra pessoa tocada por outro pensamento? Como arcar com a resposta do hoje até a entrevista se decompor junto com a revista? Como escolher, por exemplo, uma frase do filósofo brasileiro Huberto Rohden?: O homem moderno é infiel a si mesmo; deixou de ser, para apenas existir ou O remédio não está em mudar os objetos, mas em corrigir o sujeito. E do indiano Osho?: É mais fácil amar a humanidade do que os seres humanos, porque amar a humanidade não oferece riscos ou Há apenas uma traição,e ela consiste em trair sua própria vida; E do mestre espiritual alemão Eckhart Tolle?: Se a paz é de fato aquilo que desejamos, então devemos escolhê-la ou A fofoca fortalece o ego por meio da superioridade moral imaginada, que fica implícita em toda apreciação negativa que fazemos de alguém. Vale seis pensamentos?
Enfim, jamais serei uma celebridade. Ficaria abestada cara a cara com Marília Gabriela. Não saberia responder Liliane Moreira por Liliane Moreira. Não saberia também me definir em 15 segundos no Fantástico. Mas concordo com os que dizem que para sabermos quem somos podemos começar descobrindo quem não somos. Isso eu sei. Não sou uma coisa só.
