terça-feira, 12 de maio de 2009

Nada sabemos da alma senão da nossa; As dos outros são olhares, são gestos, são palavras. Com a suposição de qualquer semelhança, no fundo. Fernando Pessoa

domingo, 26 de abril de 2009

Fazendo sua história

Tenho grande admiração por quem tem objetivos. Mais do que isso. Por quem luta por eles. E muito, muito mais, por aqueles que os alcançam com seus próprios pés. Sábado passado me deparei em mais uma história assim. Fui fazer uma matéria para jovens do Ensino Médio, portanto que precisam escolher “o que querem ser quando crescer”, passando pelo absurdo chamado vestibular. Adoro este projeto. São cerca de 15 profissionais firmados em suas carreiras que contam para alunos de 16 anos o que fazem, como fazem, quanto ganham. Essas são as perguntas iniciais de todo bate-papo. Os meninos querem saber, principalmente, quanto ganham. Não dá pra fugir do capitalismo em que vivemos. Neste projeto eu tenho sempre que me virar em 15 para cobrir todas as salas e todas as profissões, tirando fotos e captando os depoimentos mais interessantes. Tenho somente duas horas pra fazer isso. E essa parte é torturante para mim. Queria interromper a palestra e falar pra eles o quanto é terrível pra uma assessora de imprensa ficar à parte dos fatos. Eu queria mais era continuar numa cadeira daquelas, como uma adolescente, e só ouvir. Ano passado me envolvi com a palestra de uma médica fantástica, que fez mestrado na Alemanha, foi do Ministério da Saúde e optou depois por dar aula na sucateada universidade federal. Quem há de entender? Quanto mais ela explicava, mais o semblante dos alunos mostrava surpresa. Ela conseguiu com tanto esforço o mestrado na Alemanha, depois de ter ido ao Rio, passado por uma banca criteriosa em universidade respeitada. Voltou ao Brasil, conseguiu emprego no Ministério e prefere abrir mão de tudo para dar aulas? Nem cogitou ter consultório? Por que? Por que algumas pessoas tão talentosas não querem o que a maioria daria tudo para ter? Será por isso mesmo que Deus emprestou talento a essas pessoas? Por não quererem ter o talento para si? Esta médica doa seu conhecimento nas salas de aula. Foi criticada na família e talvez nem tenha o carro que acha mais bonito, mas se você visse como ela falava de sua profissão, pensaria em tudo menos num importado com air bag. Este ano me surpreendi com outro caso da área de saúde. Um fisioterapeuta. Para variar, entrei esbaforida na sala, pedi licença, atrapalhando a aula, pois os alunos se desconcentram para saírem bem na foto. Depois do click fiquei no canto tentando pegar alguma informação relevante. E fui ficando. Me encantei com a história daquele rapaz de classe média, que tinha tudo para ser mais um entre tantos que querem ter um emprego e nada mais. O que mais me chamou a atenção nele foi a sinceridade. Contou aos alunos que fez vários vestibulares, por não saber o queria. Eureka! Mais um igual a mim, pensei!. Fui eu que descobri que tinha vestibular para Ciências Imobiliárias. Eu nem imaginava o que seria com um curso desses, mas sabia que a concorrência na época era dois por vaga. Fiz. E não passei. Me achei um trapo de estudante e cogitei a ideia de continuar a vida vendendo roupas e cosméticos, que é como eu me virava aos 17. Mas queria um diploma. Fiz pra Engenharia, Enfermaria e para Educação Física. Nesse último, então, foi hilário. No dia da avaliação física fui a atração da universidade federal de Fortaleza. Sim, fui para Fortaleza também. O Maranhão era pouco para mim. Só tinha vestibular de ano em ano. Não dava para esperar. Lembro perfeitamente do mico. A prova exigia que o vestibulando desse onze voltas num campo de futebol. Na época, eu fazia duas horas de aeróbica tranquilamente e, portanto, tinha resistência para dar até 22 voltas num campinho de futebol. Me sentindo o próprio Forrest Gump disparei a correr. Passei à frente de todos e meu ego de Garfield me dizia que eu era o máximo. Lá pela oitava volta, minhas pernas não obedeciam mais ao ego felino. Fui perdendo força e o ar. Minha boca ficou seca, parecia aquela atleta que chegou em último lugar, toda torta, nas Olimpíadas. Mas pra ela foi lindo. Olimpíadas, Globo, fama e tal. Pra mim, não. Minha companheira de viagem ria sem piedade de mim. Quem assistia à prova ria também, mas depois a comoção foi geral. Viram que era sério o negócio. E gritavam: Não pára! Não pára! Eu fiz xixi ali mesmo correndo. E caí. A prova acabou. Morri de vergonha. Me levaram para enfermaria e eu queria meus cosméticos de volta. Nada de vestibular. Aquilo foi de fato uma prova-ação. Só não sabia o que deveria aprender com ela. Sabia apenas uma coisa: Educação Física nunca mais. Quem sabe Administração? E tentei também. Já o fisioterapeuta teve mais sorte que eu. O pai dele o chamou e disse: “Filho, tenho notado que você vem tentando vestibular para vários cursos. Me diga: você quer um diploma para você ou para mim?”. Achei essa história muito massa, pois é assim mesmo que pensamos quando somos jovens demais. Queremos mostrar para os outros o quanto podemos. Queremos que nossos pais tenham orgulho de dizer no supermercado que o filho deles passou entre os primeiros. Meu pai nunca falou nada para mim sobre o episódio Forrest. O que aprendi foi por mim mesma, com apoio de minha mãe, que temos que ter coragem para bancar nossos desejos. Mas o pai do palestrante disse: “Eu já tenho meu diploma de engenheiro. Não preciso do seu. Descubra o que você gosta de fazer e faça”. E foi assim que este rapaz lutou para ser fisioterapeuta. Cedo foi ser monitor e dava aulas ainda cursando. A rotina começava às 7h e terminava às 22h. Intervalo de uma hora pro almoço. Tudo a pé ou de ônibus. Hoje, ele banca seu sustento, tem seu carrinho, seu apêe, conta com um risão no rosto que a rotina aumentou mais ainda, pois dá plantão aos domingos também. Mesmo sem precisar financeiramente, continua dando aulas à noite. E num sábado raro de folga, aceitou o convite para fazer palestra grátis para os alunos do colégio onde ele estudou. Será que é realizado esse rapaz? Pensei em mim. Em como demorou para descobrir que queria ser jornalista. Na luta para trabalhar até às 13h30 e estar na aula às 14h. Nos ônibus cheios, na falta de tempo pro almoço. Pensei nos plantões de fim de semana. Em como lutei para abrir e manter uma empresa do jeito que eu queria, quanta leitura e estudo, para hoje ter o maior de todos os respeitos, que é o meu por mim mesma. Saí daquela sala com mais vontade de continuar escrevendo, lendo, provocando, questionando, que é o que Deus me confiou fazer. Gosto de estar com pessoas que se desafiam também, que agarram oportunidades. Pessoas que mudam a história de uma comunidade, de um país, e acho ainda mais fascinante pessoas que lutam e conseguem conquistar seu espaço. Pessoas como você, Alexandre, a quem dedico este texto.

sábado, 25 de abril de 2009

Entrevista comigo

Não sei me definir. Fico impressionada com quem sabe. Sempre que leio entrevistas do tipo pingue-pongue sinto uma inveja danada de quem responde na lata. Uma cor. Um defeito. Um presente que mais gostou. Uma música. Uma frase. Vamos supor que eu seja entrevistada. Primeira pergunta: uma cor. Uma cor pra quê? Se for pra dormir tranquilamente, lilás. Aliás, pode ser duas? Lilás ou azul clarinho. Se for uma cor pra me deixar magra: preto. Pra parede da sala, não saberia dizer o que me influencia a escolha. Só sei que já pintei a sala de vermelho, mostarda, bege, salmon... Pode ser quatro cores, então? Se for cor da roupa pra trabalhar, prefiro preto e branco. Mas tem que ser as duas juntas. Toda de branco é reveillon. De preto, o bope. Se for cor do carro, aí é mais fácil. Qualquer uma, menos cor de gema. Desde que seja a cor original, porque erraram na pintura do meu possante e de longe nota-se a diferença. De um lado cor de vinho cabernet sauvignon; do outro, rosè. Tô indo bem na entrevista? Continuemos. Um defeito. Depende da situação provocadora. Se eu achar que foram injustos comigo, tenho o defeito de não dar a outra face. Respondo e argumento até lembrar dos sábios que ensinam que o melhor é calar. Mas aí já respondi. Deixa pra calar na próxima. Eu hei de aprender a calar. Depende também da perspectiva. O que pode ser um defeito em mim, pode não ser noutra pessoa. Tem gente que daria tudo pra não ter medo de responder a quem lhe foi injusto. Então, o meu defeito seria uma virtude nesta pessoa. Mas como a entrevista não é com esta pessoa e, sim, comigo, tenho que voltar ao assunto e confessar um só defeito, entre não saber calar, não saber dar entrevistas pingue-pongue e não saber me definir. Posso pular essa pergunta? Um presente que mais gostou. Agora pegou. Que eu mais gostei durante a vida inteira? Quando eu tinha oito anos e ganhei meu primeiro relógio de verdade, foi a coisa mais emocionante da vida. Eu perguntava pra todo mundo se queriam saber as horas. Achava o máximo saber ver as horas sozinha. Mas também amei ganhar a coleção de fofoletes. Almoçava com elas ao lado do prato, pois a agência de publicidade das bonecas era tão boa que fazia as crianças acreditarem que a bonequinha dava sorte. Eu pedia pra boneca que me ajudasse a comer tudo para escapar da bronca da minha mãe. Deu tão certo que de tanto comer, tenho hoje que vestir preto pra parecer mais magra. Mas se a escolha puder ser entre os melhores presentes da pré-adolescência, poderia responder patins de ferro. Já na adolescência, pulseira cartier. Era chique ter pulseira cartier nos anos 80. E eu, como boa adolescente, precisava ser admirada pra me sentir segura. Mais pra frente um pouquinho, adorei ganhar um urso de pelúcia quase do meu tamanho. Mas, em geral, o melhor presente pra mim é o inesperado. Dois amigos viajaram recentemente e me trouxeram uma caixinha de madeira com sabonetinhos pra enfeitar o banheiro. Fiquei com cara de paisagem! Não esperava que lembrassem de mim numa viagem a trabalho. Foi um dos melhores que já ganhei. Outra vez fiquei feliz da vida por ter ganhado uma caixinha de pastilhas tic-tac. Eu adoro tic-tac da caixa azul. Só quem presta atenção em mim sabe que sempre tenho na bolsa. E ontem recebi um presente lindo: alguém me disse que adora ouvir o meu sorriso. Nossa, como foi bom receber isso! Enfim, pulemos essa também. Uma música. Agora ferrou de vez. Eu, que sou viciada em música, tenho que escolher umazinha só? Pode ser uma da Zélia Duncan, uma do Nando Reis, uma da Legião (impossível uma só da Legião), uma do Vinícius, uma do Andreas Volleinweider, uma do Pedro Camargo Mariano, uma do Flávio Venturini, uma do Beto Guedes, uma da Sade, uma do Lulu Santos, uma do Ben Harper, uma do Vander Lee, uma do Jack Johnson? Dá pra dizer, no mínimo, 13? Uma frase. Essa é pra enterrar de vez. Talvez Conhece-te a ti mesmo resuma o que considero fundamental na vida, mas não dá pra dizer que é a única. Tem frases que me transformam no agora. Mas as que eu lerei no dia seguinte me transformarão novamente e assim por diante. Como dizer que a frase de hoje será a minha frase eterna, se amanhã já serei outra pessoa tocada por outro pensamento? Como arcar com a resposta do hoje até a entrevista se decompor junto com a revista? Como escolher, por exemplo, uma frase do filósofo brasileiro Huberto Rohden?: O homem moderno é infiel a si mesmo; deixou de ser, para apenas existir ou O remédio não está em mudar os objetos, mas em corrigir o sujeito. E do indiano Osho?: É mais fácil amar a humanidade do que os seres humanos, porque amar a humanidade não oferece riscos ou Há apenas uma traição,e ela consiste em trair sua própria vida; E do mestre espiritual alemão Eckhart Tolle?: Se a paz é de fato aquilo que desejamos, então devemos escolhê-la ou A fofoca fortalece o ego por meio da superioridade moral imaginada, que fica implícita em toda apreciação negativa que fazemos de alguém. Vale seis pensamentos? Enfim, jamais serei uma celebridade. Ficaria abestada cara a cara com Marília Gabriela. Não saberia responder Liliane Moreira por Liliane Moreira. Não saberia também me definir em 15 segundos no Fantástico. Mas concordo com os que dizem que para sabermos quem somos podemos começar descobrindo quem não somos. Isso eu sei. Não sou uma coisa só.